12 Junho 2008

DAVE PHILLIPS

Dave Phillips foi membro fundador do quarteto suiço FEAR OF GOD, mas desde 1988 (após o fim do FEAR OF GOD), Dave Phillips seguiu seu próprio caminho atuando no cenário avant-garde do noise eletrônico como artista solo ou participando de outros grupos e projetos como Schimpfluch-Gruppe, OHNE e Dead Peni.

Recentemente “The hermeneutics of Fear of God” foi lançado pela Absurd Records em Lp e Cd e Dave nos concedeu essa entrevista, espero que gostem!
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Olá Dave! O “The hermeneutics of fear of god” acaba de ser lançado aqui no Brasil, você esta satisfeito com o resultado final? Algum comentário?

Estou muito contente com esse lançamento! Tudo saiu legal! Claro que existem sempre alguns detalhes que poderiam ter ficado melhor, mas eles são menores, estou extremamente feliz com esse lançamento!

Vejo que você toca ao vivo com freqüência e, o melhor, em quase todos os lugares! Como você consegue arrumar esses concertos e principalmente esses em países como Coréia, China e Lituânia?

Normalmente começa com o interesse de alguém de um dado país em uma performance minha. Freqüentemente são eventos do tipo festivais que se oferecem também para pagar pela viagem e pelas despesas, mas como eu não gosto de viajar longe só pra uma gig, tento, então, agilizar outras gigs nas imediações. Se essas gigs extras não puderem cobrir as despesas com a viagem, posso pedir para uma entidade de financiamento (normalmente o “conselho suíço de artes”, uma organização que promove a cultura suíça) para custearem minhas viagens, o que me permite tocar ainda mais gigs, freqüentemente de graça. Mas eu mesmo faço todo o trabalho da organização dos eventos.

Você acha que poderia tocar no Brasil uma hora dessas? Se sim, o que o público brasileiro poderia esperar de uma performance sua, poderia descrevê-la?

Essa é certamente uma possibilidade, aliás, a América do Sul é um lugar onde nunca estive e estou ansioso pra tocar aí. Eu faço diferentes tipos de performances, mas a que mais apresento é uma de ação física onde eu desenvolvo uma transformação humanimalística usando os sons do corpo, voz, objetos e efeitos. Isso é acompanhado de uma exibição em vídeo extremamente crítica do consumismo atual e dos sistemas de valores sociais correntes, o que permite outras maneiras de compreender os pensamentos e os sentimentos que eu tento transmitir com o meu trabalho. Essa performance é emocional e fisicamente intensa e “direta”, mas também algo intima.

Falando a respeito do disco, como você descreveria melhor o “The hermeneutics of fear of God”, ele é mais um álbum do Dave Phillips ou as pessoas podem considerá-lo um álbum do Fear of God também?

O “hermeneutics” é muito mais um álbum meu. As fontes sonoras que usei nesse disco, no entanto, são todas exclusivamente de gravações do Fear of God, sendo assim, essa é uma forma de homenagear essa banda, uma re-interpretação, uma descontrução e uma reconstrução.

Agora um pouco sobre o Fear of God, a banda acabou e você escreveu um “felizmente” na contra-capa do LP. Qual é de fato o sentimento? Você realmente acha que nunca estarão juntos novamente depois daquela reunião de 2003?

Foi um erro reformar o Fear of God, em 2003, já que não era a formação original. Erich e eu estivemos mais ou menos em contato por todos esses anos e nós dois tínhamos a chama ainda acesa dentro de nós mas levou um tempo pra compreendermos que isso, caso fosse possível, só poderia ser alcançado com os membros originais. Dizer que o Fear of God acabou definitivamente não significa necessariamente que não vamos nos juntar novamente como banda — só não se chamará mais Fear of God.

Você poderia descrever ou falar um pouco de sua música assim como de seus outros projetos? Sei que algumas vezes você usa som de insetos como fonte para construir os sons, como é isso?

Bom, não é tão fácil… Em primeiro lugar, eu pesquiso e reflito sobre a existência, os comportamentos e os sistemas de valores, de uma maneira que, na maior parte do tempo não científica, poderia ser chamada de humanimalística, mas também terapêutica — é uma necessidade interior que tenho. O som é minha linguagem preferida e, portanto, meu principal catalisador. Eu busco e tento instigar a melhora, uma sintonia dos sentidos, uma ampliação da consciência, um processo de aprendizagem. Isso inclui também uma forma de liberação, uma catarse — uma liberação que se opõe à onipresente redução da existência, uma liberação que deseja deixar de lado os arranjos, os constrangimentos e os valores artificiais. Meu trabalho é, basicamente, uma voz que grita por consciência, por estar alerta e por mudança.

Isso se exprime de diferentes maneiras. Uma, minha “ação-ao vivo” descrita anteriormente. Outra, os trabalhos de gravação de sons da natureza que faço e que se baseiam na pureza dos sons da natureza é, definitivamente, um tributo à mãe-natureza e a todos os seus habitantes. No entanto, isso também inclui um aspecto crítico no sentido de que percebo a existência natural e todas as formas de vida como entidades em desaparecimento e não apenas aquelas que não valorizamos ou respeitamos o suficiente, mas também aquelas que iremos descobrir como muito preciosas quando tiverem desaparecido.

Depois disso, também toco um projeto solo chamado “dead peni”, que rende um tributo aos meus companheiros da vida toda, o punk e o metal. Esse projeto inclui baixo elétrico, uma bateria eletrônica e fitas pré-gravadas. Uma demo em CDr foi lançada em 2005 e o primeiro disco deverá sair até o fim deste ano.

Além disso, tenho várias colaborações em andamento, por exemplo, com G*PARK, PHROQ, ANTOINE CHESSEX, RANDY YAU e outros, sem esquecermos do trabalho contínuo com meu companheiro no selo Schimpfluch, RUDOLF EB.ER (a.k.a. Runzelstirn & Gurgelstock).

Desde março, toco baixo em uma banda, ainda não temos nome, e tocamos um estilo de hardcore crust/black metal do tipo clássico.

Você ainda ouve alguma coisa de hardcore, metal ou noise? Quais são seus favoritos? Se não, o que você costuma ouvir hoje em dia?

Eu ouço todo tipo de som… Tenho um forte gosto pelo amplo e infindável espectro de “ruído” abstrato, psicótico, bizarro, estranho, fodido e esquisito que existe por aí; também gosto de música erudita contemporânea, tanto a mais recente, quanto a primeira geração; amo música estranha obscura e perversa, canções antigas tradicionais e de verdade; também gosto de alguma coisa pop, se é autêntica (o que é sempre algo muito subjetivo) e também sou grande fã de música de trilha sonora, mas sempre ouço punk/hardcore e metal. Meus favoritos de todos os tempos? Uh… RUDIMENTARY PENI sempre acabam comigo, mesmo o material novo. Eu adoro CORRUPTED, DIE KREUZEN, AMEBIX, CYANAMID, SIEGE, SWANKYS, CRUCIFUCKS, o velho hc escandinavo, japan-core, SWANS, BIG BLACK, VENOM… putz, a lista de “favoritos clássicos” é interminável e envolve muitos outros estilos também (NURSE WITH WOUND, FOETUS, LAIBACH etc.). Tenho redescoberto muita coisa punk velha tipo THE DICKS, THE GERMS e SACCHARINE TRUST. Ouço coisas mais recentes de vez em quando mas não muita coisa se sobressai, talvez BOLZ’N, DEVOURMENT, MASSGRAV, GALLHAMMER, gosto muito de black metal tipo SORTSIND, mas como disse, essa lista pode continuar pra sempre e eu estaria apenas mencionando a ponta do iceberg…

Como é ser vegan por tanto tempo? Você ainda é um ativista e o que poderia falar para quem começa agora?

Para mim, sempre foi algo que eu sentia dentro de mim, como saber que era uma coisa da qual eu não queria fazer parte, ou ter a menor participação possível, em outras palavras, a exploração da natureza e o uso desperdiçador dos nossos recursos naturais — evitar produtos animais é apenas uma das maneiras de conseguir esse objetivo. Se você chama isso de vegan, isso pode dar um nome para essa atitude, mas pra mim isso não inclui a extensão toda do que os meus sentimentos expressam e, tomara, do que os meus atos significam. O meu ativismo, até onde se possa chamá-lo de ativismo, é expresso por meio do que está presente na minha música, no meu trabalho e, assim, na minha vida diária.

Como começar? Siga os seus sentimentos e não se esqueça da sua mente.

Certo, a entrevista foi curta mas espero que agradável, algo mais que você gostaria de dizer?

Obrigado Marcelo por essa oportunidade e grato novamente por sua fantástica investida no lançamento do “hermeneutics”! Te desejo tudo de melhor e espero te conhecer um dia. Qualquer pessoa interessada no meu trabalho pode visitar meu site: www.tochnit-aleph.com/dp (que está em um processo de reformulação imenso, então dêem -uma nova - visitada em algumas semanas).

Entrevista por: Marcelo R.Batista
Revisão: Georges Kormikiaris


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